20071119

Retorna o frio.
Retorna a chuva.
Retorna a lama.
Retorna a alma.

Sempre parte dos caminhos.
Parte indissociável das veredas.

Retorno ao hoje.
Retorno à errância.
Retorno a casa.
Retorno a mim.

Sempre parte dos caminhos.
Parte indissociável das veredas.



20060712

Veloz

Gosto de, alcançada a sintonia com o ritmo dos caminhos, acelerar à velocidade humana permitida pelo vento e topografia e, sob este sol escaldante, deixar para trás marcos palpáveis de paisagem.
Por vezes ora-se, por vezes pensa-se, por vezes nada, sou eu imerso no mundo, na terra e sua atmosfera, suando até ao limiar da desidratação, vivendo até ao limiar da exaltação.
Veloz...Om Mani Padme Hum...Veloz...Quem sou quem és tu?...Veloz...Um pássaro faz passagem rasante...Veloz...Água sorvida, água vertida sobre o pescoço, sobre a cabeça, sobre o sorriso, sem abrandar...Veloz...Nas descidas, nas planícies, nas ascensões desafiadoras...Veloz...
Os meus pés soam a batida de coração no solo ressequido e deixam um rasto de poeira se uma ligeira brisa correr.
É de manhã caminhando em direcção ao Oriente, enfrentando o Sol das inimagináveis temperaturas, que imagino e me concretizo. Veloz, intemporal, percorrendo o rugoso e fantástico mundo.

20060417

De Sexta-Feira. A Santa

Abram-se as portas para a maravilha insuspeita, para as matinais venturas, abram-se os campos à nossa passagem.
Que sejam de espigas as marés e nelas, indolentes, naveguem efémeros cardumes de orvalho.
Que impere a vida e sua corte de cores sobre todas as coisas.E que eu, amigo dos caminhos, assim possa testemunhar a sua aguardada ressurreição.

20060406

Nesta terra

O que eu queria, realmente,
era um mundo novo a haver.
A cartografar.
Como se nos domínios da geografia
residisse a salvação.
Serei alguém, talvez semeando precipícios.

Regando rebentos de falésias,
podando o resvalar da gravilha.
Sou pai orgulhoso das suas quimeras rochosas,

dos seus abruptos abismos.


Serei alguém, talvez colhendo montanhas.

Chega a hora

Poderia escrever sobre as sombras que nos assaltam, como salteadores alapados nas valas, suspensos nas copas das árvores que ladeiam os caminhos.
Mas, como guarda de defesa, surgem memórias, de dias e de horizontes distendidos, a uma primeira abordagem até ao infinito, onde o calor nos faz ver cidades distantes em bailados bruxuleantes, humanos quase líquidos em passada tremeluzente, avançando, não reconhecendo o temor, entre essas mesmas valas e árvores que ladeiam os caminhos.
É desses dias, verdadeiros templos de uma fé inabalável na vida enquanto celebração que residem tesouros, que, sentado à mesa dos sonhos, contemplo.
Onde estão estas gentes? Onde estará cada um destes corpos, olhares, expressões, braços, pernas, anseios, vozes ora em surdina, ora em gargalhada, ora em cântico?
Onde estará cada um destes humanos? Que de uma secreta passagem na paisagem saíram para a ela retornarem sem que disso nos apercebessemos?
Onde estarão estes, a um tempo, companheiros de uma viagem ao início dos tempos?
Singulares fragmentos de vidro colorido, aos quais, por sabe-se lá que encantamentos, por momentos, sou capaz de adicionar um temporário chumbo unificador, que os transfigura em vitral que a contemplação baptiza de admirável.
Aí, cada um por si, reflectindo à sua maneira o espectro, revelam cumplicidades, desvendam comunhões, que se alojam neste solo pétreo, frio, de catedral em permanente construção.
Monumento aos construtores do edifício-caminho.
Chega a hora de mais uma partida, de mais um lançar de dados.
Chega a hora da aventura.

20060405

Mergulhando na manhã, como se de um ribeiro se tratasse.
Que me levasse ao mar.
Bizarro o sopro da brisa, parece trazer ansiedade no bico, mas entretanto passa um melro e leva-me a ideia.
Mergulhando na manhã, como se de um ribeiro se tratasse.
Que me levasse ao mar.
Dobro uma esquina, duas, três.
Volto o olhar em volta.
Levo as mãos aos bolsos. Encontro os bolsos e, nestes ,as mãos, que ali as tinha levado.
Mergulhando na manhã, como se de um ribeiro se tratasse.
Que me levasse ao mar.
Numa janela alguém se ancorou, da vida vendo navios e estendendo uma cueca ou outra. Ou até uma singela toalha de mesa com motivos florais.
Numa garagem um homem liga um rádio. Ocidente.
Noutra garagem um homem liga um carro. Oriente.
Noutra ainda alguém ausente.
O padeiro, lá vai ele e o vigilante da escola, e o expectante passageiro das manhãs e ontem à noite, à noite, alguém chorou. Não porque as poças no asfalto o denunciem mas porque eu ouvi. Ouvi como um murmúrio.
Aceno ao senhor dos óculos e cabelo branco e boné verde. Está sempre ali.
Antevejo um café e antes deste um púcaro de água a ferver.
Antevejo que me sento e remordo. E me levanto.
E que saio.
Mergulho na manhã, como se de um ribeiro se tratasse.Que me levasse ao mar.

20060328

Thomar

Era lá, nas noites em que nos sonhávamos Templo e, recostados na encosta muralhada, visionando as Plêiades, Arcturo, Boieiro, nos sentíamos parte de um mundo aparte, onde as estátuas ganham vida e contam histórias, onde laranjeiras revelam segredos. Onde uma oliveira oferta mais além de um fio de azeite.
Há estradas que levam a lugar algum e isso não é necessariamente mau. Ou bom.
É a matriz das coisas da terra. É a matriz das coisas do céu.
Thomar. Dos tabuleiros em celebração ocasional, dos recantos perdidos do Nabão, do ecoar resoluto das edificações.
Há uma outra cidade em Thomar, uma cidade submersa que, de tempos a tempos, quando a maré do presente recua, se permite emergir e levar ao espanto os incautos viandantes.

20060327

A Primavera chegou. E as escavadoras também.

É com um sentimento de já instalada nostalgia que percorro agora o monte.
O meu monte.
Onde, de há dois anos a estes dias me enlameei no Inverno dos odores fortes, celebrei as rubras tonalidades do Outono-legenda do eterno retorno, me deitei, barriga voltada ao céu, entre os crocantes, sequiosos arbustos.
É com um sentimento de já instalada nostalgia que celebro neste Domingo de sol estreante o eclodir das quimeras no monte.
O meu monte.
Por ali me perco agora, enquanto a possibilidade reina, revisito a toca do escaravelho que, laborioso, a ela transporta a caganita de ovelha recém adquirida, enquanto a possibilidade reina evito o ninho de vespas, sei onde fica, por detrás daquela oliveira que não chegará a adulta, transporto-me no seio desta melodia, de tom intermédio, entre o contralto e o basalto, entre o vento nas verdejantes espigas, notas graves e agudas, lesmas barrigudas, languidesço neste doce torpor perante a festa da criação.
É com um sentimento de já instalada nostalgia que sei que não haverá outra Primavera igual no monte.
No meu monte.
As escavadoras estão ali, na fronteira, de pás afiadas.
Já tombaram, na linha da frente, bravos arbustos e valorosas árvores.
Os coelhos debandaram e o voo nervoso dos melros será em breve uma recordação, assim como aqueles esboços de caminhos, filhos queridos de tantos passos ali pensados.
Ali sorri e digeri tristezas, ali fui rei e vagabundo, à vez, ao molho.
Ali me vi, senhor dos sonhos e da vontade feitos realidade.
Ali me vi, no monte.
Ali, neste prelúdio de invasão, tento salvar, com todos os sentidos, o possível, antes da expulsão do paraíso. Humilde. Cheiroso. Terreno.
O meu monte.