Poderia escrever sobre as sombras que nos assaltam, como salteadores alapados nas valas, suspensos nas copas das árvores que ladeiam os caminhos.
Mas, como guarda de defesa, surgem memórias, de dias e de horizontes distendidos, a uma primeira abordagem até ao infinito, onde o calor nos faz ver cidades distantes em bailados bruxuleantes, humanos quase líquidos em passada tremeluzente, avançando, não reconhecendo o temor, entre essas mesmas valas e árvores que ladeiam os caminhos.
É desses dias, verdadeiros templos de uma fé inabalável na vida enquanto celebração que residem tesouros, que, sentado à mesa dos sonhos, contemplo.
Onde estão estas gentes? Onde estará cada um destes corpos, olhares, expressões, braços, pernas, anseios, vozes ora em surdina, ora em gargalhada, ora em cântico?
Onde estará cada um destes humanos? Que de uma secreta passagem na paisagem saíram para a ela retornarem sem que disso nos apercebessemos?
Onde estarão estes, a um tempo, companheiros de uma viagem ao início dos tempos?
Singulares fragmentos de vidro colorido, aos quais, por sabe-se lá que encantamentos, por momentos, sou capaz de adicionar um temporário chumbo unificador, que os transfigura em vitral que a contemplação baptiza de admirável.
Aí, cada um por si, reflectindo à sua maneira o espectro, revelam cumplicidades, desvendam comunhões, que se alojam neste solo pétreo, frio, de catedral em permanente construção.
Monumento aos construtores do edifício-caminho.
Chega a hora de mais uma partida, de mais um lançar de dados.
Chega a hora da aventura.